Trabalho
encontrou dez possíveis espécies novas do
fungo; luz poderia funcionar como sensor de poluição
Reinaldo
José Lopes escreve para a ‘Folha de SP’:
O
trabalho de pesquisadores da USP está revelando
uma série de novas espécies de um tipo todo
especial de fungo: pequenos cogumelos que emitem uma misteriosa
luminosidade verde no escuro.
As
criaturas, antes desconhecidas no Brasil, podem ajudar
a elucidar o mecanismo bioquímico que leva à
produção de luz em fungos. Além disso,
com um pouco mais de estudo, poderiam servir como sensores
vivos de poluição ou mesmo fontes de moléculas
úteis para a biotecnologia.
Segundo
Cassius Vinicius Stevani, químico da USP que coordena
os estudos, é possível que o material recolhido
abranja pelo menos dez espécies novas.
Não
é pouca coisa, já que no mundo todo se conhecem
só 42 espécies do fungo, quase todas restritas
ao Sudeste Asiático.
"Já
temos uma descrita, a Gerronema viridilucens, e seis já
estão em fase de descrição",
contou Stevani à Folha.
Mistério
antigo
Em
fungos, a bioluminescência -trocando em miúdos,
a luminosidade produzida por seres vivos- é um
fenômeno conhecido há milênios, tendo
sido descrito pelo filósofo grego Aristóteles
(século 4º a.C.). Os cientistas, no entanto,
continuam sem saber como ela funciona.
Foi
na esperança de entender o fenômeno que Stevani
e seus colaboradores se puseram a procurar cogumelos do
tipo no Brasil.
"É
provável que nenhum pesquisador tivesse identificado
espécies no Brasil porque é preciso procurá-los
à noite. Além do mais, a luz é muito
fraca, até sob o luar", explica o químico.
Com
base em relatos de moradores e muita paciência na
coleta, a equipe chegou aos cogumelos em dois locais:
o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira, em
Iporanga (SP) e uma área de mata ciliar no município
de Costa Rica, Mato Grosso do Sul.
Outros
relatos sugerem que fungos do mesmo tipo podem ser encontrados
no Tocantins e no Amazonas.
A
identificação e descrição
está sendo feita com a ajuda de Marina Capelari,
do Instituto de Botânica de São Paulo, e
Dennis Desjardin, da Universidade Estadual de San Francisco
(EUA).
A
emissão de luz é efêmera. Os cogumelos,
que na verdade são apenas uma espécie de
órgão sexual do fungo, duram entre 24 e
48 horas. Eles é que emitem luz, que aparentemente
pode vir tanto da parte inferior do chapéu quanto
do "cabo" ou do cogumelo inteiro.
Algumas
espécies surgem da casca de árvores vivas,
enquanto outras se alimentam de matéria vegetal
em decomposição.
Apesar
da rapidez do processo, os pesquisadores descobriram como
cultivar o G. viridilucens em laboratório e verificaram
que ele pode funcionar como uma espécie de sensor
de poluição. É que a luz parece variar
de acordo com a concentração de poluentes
aplicados sobre o fungo.
"Dessa
forma, você teria um parâmetro rápido
de medir e fácil de avaliar, ao contrário
de outros biossensores com fungos, que exigem tempo maior
de aplicação e tratamento estatístico
mais complicado", explica Stevani.
Como
os fungos ajudam a reciclar nutrientes, têm um importante
papel na manutenção da saúde dos
ecossistemas -outra razão para usá-los como
indicadores.
Finalmente,
com informações mais detalhadas sobre o
mecanismo da luminescência, uma série de
aplicações úteis pode surgir. É
que os estudos de biologia molecular dependem muito de
reações que geram luz e de proteínas
fluorescentes de diversas cores.
Quando
um pesquisador quer saber se determinado gene está
ativo ou não, por exemplo, gruda nele o trecho
de DNA correspondente à GFP (proteína fluorescente
verde). Se o gene for ativado, a proteína "acende",
dedurando-o.
"Como
as técnicas desse tipo têm limitações,
é sempre bom contar com novas opções",
avalia Stevani, com a ressalva de que os estudos ainda
estão no começo.
Fonte:
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=30980