REINALDO
JOSÉ LOPES
Free-lance para a Folha de S.Paulo
Quando
metais pesados, como o mercúrio, contaminam um
rio ou o mar, pode demorar meses antes que seja possível
detectar o poluente nos animais que vivem na água.
Pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro) estão usando alterações
genéticas dos bichos para baixar esse intervalo
para menos de 24 horas, criando um jeito sensível
e rápido de flagrar a poluição.
"As
duas abordagens [química e genética] se
complementam, mas nosso trabalho mostra não só
que houve uma exposição às substâncias
tóxicas mas também os efeitos que elas causaram",
diz Mauro de Freitas Rebelo, 33, pesquisador do Instituto
de Biofísica Carlos Chagas Filho, na UFRJ.
Por
enquanto, a equipe está estudando que tipo de bagunça
fisiológica os dejetos químicos causam no
organismo de moluscos como as ostras da baía de
Sepetiba, no Rio. (Há também trabalhos com
peixes sendo planejados.) O que eles medem não
é a alteração direta do DNA, mas
mudanças no grau em que um gene se mostra mais
ou menos ativo.
Isso
é bem menos difícil do que parece, porque
as células produzem sinalizadores desse liga e
desliga de genes --conhecido como expressão gênica--
o tempo todo.
São
as moléculas de RNA mensageiro, que fazem a ponte
entre as instruções codificadas no DNA e
substâncias que a célula produz sob essas
instruções, as proteínas. Quanto
mais RNAs mensageiros de um gene estão circulando,
mais ele está na ativa.
No
caso da pesquisa da UFRJ, entre os genes-alvo estão
os que trazem a receita para proteínas do grupo
das metalotioneínas. O nome é indigesto,
mas a função é essencial: essas moléculas
tentam impedir que o pior aconteça quando o organismo
é contaminado por metais pesados, como chumbo,
mercúrio, zinco e cádmio. "Elas se
ligam ao metal pesado para que ele não fique ativo
e afete funções essenciais da célula",
explica Rebelo.
Uma
expressão gênica excessiva é sinal
certo de que as proteínas estão trabalhando
demais --e de que, portanto, o ambiente está poluído.
Foi
o que os cientistas verificaram nas ostras da baía
de Sepetiba, perto de um local onde, por muito tempo,
houve exploração e beneficiamento de minério
de zinco. O fim da mineração deixou literalmente
uma montanha de cádmio como rejeito. Escoado para
o mar, o metal causou a hiperatividade de uma metalotioneína
dos moluscos.
Proteína-guardiã
Outro
sinal vermelho genético investigado pelos cientistas
é o gene p53. A proteína codificada por
ele monitora o DNA em busca de erros. Se forem moderados,
ela os conserta; caso se mostrem irreparáveis,
o p53 simplesmente decreta a morte da célula.
Quando
não funciona direito, a molécula abre as
portas para a proliferação descontrolada
de células defeituosas --em outras palavras, câncer.
Mais
uma vez, a equipe está verificando que substâncias
poluentes podem criar moluscos cancerosos --inclusive
com leucemia, uma forma de câncer que afeta o sangue
(no caso dos moluscos, a hemolinfa). É uma situação
que poderia ser gerada por certas moléculas orgânicas
provenientes de um derramamento de petróleo.
O
próximo passo dos pesquisadores, que começa
em março, é usar a tecnologia dos microarranjos
de DNA (placas que permitem o teste da expressão
de muitos genes ao mesmo tempo) para analisar alterações
na produção de 96 moléculas.
"A
célula leva apenas 18 horas para responder a uma
alteração no ambiente, o que torna esse
tipo de teste muito mais rápido. E, uma vez que
você tenha o laboratório, o custo é
dez vezes menor que o da abordagem tradicional",
diz Rebelo.
Para
o pesquisador, os resultados da análise dos moluscos
podem ter impacto até sobre o que se sabe sobre
os fatores de risco para câncer em humanos. "Muitas
dessas doenças são influenciadas por fatores
ambientais, como o fumo e a poluição, mas
é difícil saber qual o peso de cada fator.
Nesses organismos, que têm uma relação
muito menos complexa com o ambiente, isso talvez fique
mais fácil de elucidar", afirma.
Além
da baía de Sepetiba, o grupo também está
estudando os reservatórios de água potável
do Rio de Janeiro e a bacia do rio Madeira, na Amazônia.
O trabalho conta com a colaboração de um
grupo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz)
coordenado por Milton Moraes.
Fonte:
http://www.ghente.org/clippings/clipping.php?Chave=1256