Políticas
públicas que incentivem mudanças nas caldeiras
das usinas de cana poderiam produzir 100 milhões
de megawatts/hora por ano
MARÍLIA
JUSTE
da PrimaPagina
O
crescimento da demanda brasileira por energia elétrica
até 2010 não precisaria ser suprido pelas
hidrelétricas, responsáveis por 83% da eletricidade
gerada no país. A necessidade pode ser atendida
por uma matéria-prima que o Brasil possui em abundância:
a cana-de-açúcar. Com o incentivo adequado,
as usinas de cana podem gerar, até 2012, o equivalente
a duas hidrelétricas de Itaipu. Para isso é
preciso, no entanto, que sejam criadas políticas
adequadas para estimular essa tecnologia. A avaliação
é do pesquisador Suleiman José Hassuani,
do Centro de Tecnologia Canavieira, um dos coordenadores
de um projeto do PNUD realizado em parceria com o Ministério
da Ciência e Tecnologia e com o GEF (Fundo para
o Meio Ambiente Mundial).
As usinas de cana já são capazes de gerar
energia elétrica para consumo próprio. Para
produzir o açúcar e o álcool, elas
utilizam o caldo da planta, extraído quando ela
é moída. As sobras desse processo de esmagamento
são fibras, o bagaço da cana. Para gerar
energia, o bagaço é aquecido dentro de caldeiras.
Parte desse processo resulta em energia mecânica
e vai movimentar as máquinas das usinas, como as
moendas. Outra parte transforma-se em energia em forma
de vapor e é usada em outros equipamentos. Por
fim, o restante vira eletricidade e é usado para
iluminação e para fazer funcionar todos
os aparelhos elétricos da fábrica, como
ventiladores — tornando a usina independente da rede de
fornecimento de energia elétrica.
Esse sistema utiliza caldeiras consideradas de baixa pressão,
que possuem por volta de 22 bar (medida de pressão).
Segundo Hassuani, se essas caldeiras de baixa pressão
fossem trocadas por caldeira de alta pressão, de
65 bar, a eficiência do processo seria consideravelmente
maior.
“Com o sistema de alta pressão você utiliza
a mesma quantidade de bagaço de cana e gera muito
mais energia”, explica Hassuani. Usinas de cana-de-açúcar
criadas nos últimos anos escolheram utilizar caldeiras
desse tipo e hoje são capazes de ajudar no fornecimento
de energia de cidades vizinhas, segundo ele. As unidades
produtoras mais antigas, porém, usam caldeiras
de baixa pressão, e trocá-las pode ser um
investimento caro demais. “As usinas só vão
fazer isso quando o valor pago por quilowatt gerado compensar
a compra do equipamento. Senão, elas não
têm nada a ganhar”, afirma o coordenador do projeto.
Para haver a substituição das caldeiras,
Hassuani defende políticas de incentivo ao uso
dessa tecnologia. O potencial, segundo ele, compensa.
A usina de Itaipu, atualmente a maior hidrelétrica
do mundo em termos de capacidade de geração
de energia produz entre 50 milhões e 55 milhões
de megawatts/hora por ano (em 2009, Itaipu será
superada pela hidrelétrica chinesa de Três
Gargantas). De acordo com o pesquisador, se todas as usinas
de cana-de-açúcar do país investissem
em sistemas de alta pressão seria possível
gerar até 2012 cerca de 100 milhões de megawatts/hora
ao ano — o dobro de Itaipu. Hoje, o Brasil produz 3 milhões
de megawatts/hora com cana-de-açúcar.
Hassuani vai mostrar essas conclusões no seminário
Alternativas Energéticas a partir da Cana-de-Açúcar,
que apresentará os resultados do projeto Geração
de Energia Elétrica por Biomassa, Bagaço
de Cana-de-Açúcar e Resíduos. O evento
ocorre em Piracicaba, interior de São Paulo, em
31 de agosto e 1º de setembro.
Fonte:
http://www.pnud.org.br/energia/reportagens/index.php?id01=1429&lay=ene