A
ministra Marina Silva participou, hoje, da primeira reunião
do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas
convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O Fórum foi criado há quatro anos com o
objetivo de conscientizar e mobilizar a sociedade para
a discussão e a tomada de posição
sobre os problemas decorrentes da mudança do clima
por gases de efeito estufa, bem como sobre o Mecanismo
de Desenvolvimento Limpo (MDL), definido no Protocolo
de Quioto. Na semana que vem, em Buenos Aires, o Brasil
participa da 10ª Conferência das Nações
Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 10),
que debaterá, entre outros assuntos, a implementação
do Protocolo de Quioto, previsto para entrar em vigor
a partir de 16 de fevereiro. Veja o discurso da ministra
Marina Silva abaixo.
Dez ministros de estado, os presidentes do Senado e da
Câmara dos Deputados, os governadores e os prefeitos
das capitais, além de representantes da sociedade
civil, integram o Fórum Brasileiro, que reúne-se
sob convocação da Presidência da República.
Na reunião, o presidente Lula empossou o físico
Luiz Pinguelli Rosa como secretário-executivo do
Fórum.
Discurso da Ministra Marina Silva
É com grande satisfação que assisto
hoje à primeira reunião do Foro Brasileiro
de Mudanças Climáticas sob a direção
do Professor Luiz Pinguelli. Criado em 2000, com o objetivo
de conscientizar e mobilizar a sociedade brasileira sobre
o tema de mudança global do clima, o Fórum
é reinstalado em um momento particularmente importante
para o Brasil e para o mundo, às vésperas
da 10ª Conferência das Partes da Convenção
sobre Mudança Climática e ante a iminente
entrada em vigor do Protocolo de Quioto.
Para o Brasil, a existência do Fórum Brasileiro
de Mudança Climática soma-se ao papel de
liderança que o País tem tido, internacionalmente,
na discussão desse tema de interesse nacional e
global. Agora, com a perspectiva de um novo momento internacional
na discussão desse tema, o Fórum tem a possibilidade
de promover um amplo debate com a sociedade brasileira
que, registre-se, evoluiu consideravelmente na sua percepção
dos impactos e das possibilidades que a mudança
global do clima pode trazer para o País.
Embora a questão de mudança climática
ainda seja distante do cidadão comum, é
notável como os setores não-governamental,
acadêmico e privado têm produzido análises
e contribuições de significativa importância
para a compreensão do tema, para a discussão
das medidas necessárias para lidar com seus impactos
e para preparar a participação do País
nas negociações internacionais.
Esses mesmos setores, aliados ao indispensável
papel do Estado, manifestam, de maneira crescente, a necessidade
de ampliar o debate sobre a matéria, fazendo-o
de modo a permitir uma interação cada vez
maior dos diversos atores sociais, aumentando a consciência
da sociedade sobre os desafios que o tema de mudanças
climáticas traz, quer em termos de oportunidades,
a se traduzirem pela potencial transferência de
recursos para o País mediante a utilização
dos instrumentos previstos no Protocolo de Quioto, como
o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, quer em termos da
necessidade de preparar o País para eventuais efeitos
adversos em algumas de suas regiões.
A perspectiva de entrada em vigor do Protocolo de Quioto,
com o seu potencial de mobilização de recursos
da ordem de muitas dezenas de milhões de dólares
por ano, uma fração dos quais poderá
ser orientada para o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo,
torna urgente a mobilização de esforços
da sociedade brasileira no sentido de prepará-la
para aproveitar as oportunidades decorrentes deste instrumento
internacional. Para isso, o Fórum a cuja reunião
ora assistimos, pela ampla representatividade da sociedade
brasileira que encerra em sua composição,
há de ter um papel inestimável e, tenho
certeza, o Professor Pinguelli terá a sabedoria
de conduzi-lo nesse sentido.
O Brasil tem, historicamente, defendido o princípio
das responsabilidades comuns, porém diferenciadas,
que norteia a Conferência sobre Mudança do
Clima e o Protocolo de Quioto. A aplicação
desse princípio é fundamental para imputar
as responsabilidades históricas aos países
que mais contribuíram para o agravamento do efeito
estufa. Os países em desenvolvimento, por sua vez,
devem ser os beneficiários das políticas
mundiais para redução de emissões
de gases, uma vez que não contribuíram para
o passivo histórico de emissões registradas
no cenário atual. Nesse contexto, a contribuição
brasileira para o conjunto de emissões globais
não pode ser comparada à de países
industrializados, que alcançaram essa condição
graças a um processo de desenvolvimento calcado,
fundamentalmente, em emissões de gases que hoje
configuram o problema. O arranjo internacional baseado
no princípio de responsabilidades comuns, mas diferenciadas,
não estabelece, para o Brasil, metas de redução
de emissões. Não temos metas, nossas responsabilidades
são diferenciadas, mas temos responsabilidades.
O Ministério do Meio Ambiente tem estado atento
ao tema e às suas competências no contexto
governamental. Particularmente, temos a consciência
da incômoda posição brasileira de
grande emissor de gases de efeito estufa, resultantes,
principalmente, das históricas taxas de desmatamento
na Amazônia brasileira. E, por isso, é fundamental
que se reconheçam as medidas que estamos adotando
para combater esse problema. Desde que assumi o Ministério,
e em consonância com as orientações
do Presidente Lula, tenho defendido que, na área
internacional, o Brasil deve adotar uma política
de liderar por exemplos.
Por isso, estamos adotando todas as medidas que se fazem
necessárias para promover políticas de desenvolvimento
sustentável na Amazônia e reduzir os índices
de desmatamento na região. Foram tomadas medidas
importantes, como o estabelecimento de um novo modelo
de assentamento rural, os Assentamentos Florestais, e
o plano de combate ao desmatamento na Amazônia,
resultado de um inédito trabalho de parceria, realizado
por 11 ministérios. Isso se faz não porque
o Brasil tenha metas internacionais a cumprir, mas por
entender que a redução do desmatamento é
uma obrigação que temos com a nossa própria
sociedade.
No âmbito internacional, a entrada em vigor do Protocolo
de Quioto, em fevereiro de 2005, possibilitará
novas discussões sobre as responsabilidades dos
países no que se refere à mudança
global do clima. Precisamos nos preparar, desde já,
para esse debate que promete ser longo e complexo. É
sabido que países com grande potencial de desenvolvimento,
como o Brasil, a Índia e a China, já são
hoje pressionados a assumirem compromissos de redução
de emissões; essa pressão deve aumentar
ainda mais no futuro, especialmente no contexto das negociações
para o período posterior a 2012, até quando
vigoram as disposições do Protocolo de Quioto.
O Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas
deverá ter um papel fundamental no sentido de articular
a sociedade brasileira para a produção de
subsídios às posições governamentais
nas negociações internacionais que se seguirão,
somando-se aos esforços já realizados pela
Comissão Interministerial de Mudança Global
do Clima, criada com a finalidade de articular as ações
de governo decorrentes da Convenção-Quadro
das Nações Unidas sobre Mudança do
Clima e seus instrumentos subsidiários.
No Brasil, a estrutura montada pelo governo para avaliar
os projetos do Mecanismo de
Desenvolvimento Limpo, o MDL, fez com que a Comissão
Interministerial tivesse a seriedade de seu trabalho reconhecida
pelo Conselho Executivo encarregado de supervisionar o
funcionamento do MDL, ao aprovar um projeto brasileiro
como o primeiro projeto de MDL mundial sob as normas do
Protocolo de Quioto. Trata-se de um projeto de geração
de energia a partir de resíduos sólidos,
numa clara demonstração do potencial dessa
iniciativa para o desenvolvimento sustentável em
nosso País. Precisamos agora, sob a perspectiva
de aumento na competição entre países
em desenvolvimento para hospedar esses projetos, assegurar
regras claras, custos atraentes, seriedade nas ações
do Governo e segurança aos investidores.
A perspectiva de ampliação do número
de projetos MDL no País deve ensejar, por parte
de todos os atores brasileiros envolvidos com o tema,
uma preparação adequada para que esses projetos
contribuam para o desenvolvimento sustentável e
para a mitigação da pobreza. O Fórum
que hoje se reúne há de ter um papel importante
nessa discussão, ao congregar os setores governamental,
não- governamental, acadêmico e privado.
O Ministério do Meio Ambiente, ciente de seu papel
nstitucional nessa discussão, participará
ativamente dos trabalhos do Fórum, para o que o
Professor Pinguelli Pode contar com nossa permanente disposição.
No mesmo espírito do Fórum, entendemos que
a participação social é fundamental
para a implementação de políticas
públicas, em geral, e, mais particularmente, aquelas
voltadas para a redução de emissões
e mitigação de efeitos danosos ao meio ambiente
e à saúde humana.
Neste sentido, o Ministério de Meio Ambiente criou,
recentemente, o Grupo de Trabalho de Mudança do
Clima, com o intuito de fortalecer o conhecimento do tema
no âmbito do Ministério e capacitá-lo
a atuar de maneira mais consistente em instâncias
como a Comissão Interministerial e o próprio
Fórum de Mudança Climática. O Grupo,
formado por representantes do Ministério e por
especialistas de diversos setores, visa, dentro das competências
do MMA, discutir, elaborar e propor políticas relacionadas
ao tema, preparar subsídios às negociações
internacionais, acompanhar os acordos firmados entre o
Brasil e outros países, definir políticas
para a internalização dos compromissos internacionais,
avaliar projetos de MDLs submetidos à Comissão
Interministerial de Mudança Climática. A
criação do Grupo reforça a nossa
convicção de poder apoiar o Professor Pinguelli
em sua empreitada como Secretário-Executivo do
Fórum.
O Grupo de Trabalho por nós criado dá seqüência
a uma série de esforços que temos
realizado no sentido de fomentar pesquisas e implementar
políticas públicas para diminuir os efeitos
deletérios das mudanças climáticas.
O Fundo Nacional do Meio Ambiente, por exemplo, tem patrocinado
a implementação, em diversas regiões
do país, de estudos de viabilidade para projetos
de MDL. -piloto na área temáticas de mudanças
climáticas e combate a desertificação.
O primeiro edital de mudanças climáticas
obteve grande sucesso, e a edição de um
segundo edital já está sendo discutida para
o próximo ano. Além disso, em parceria com
o Ministério das Cidades, o MMA coordena uma iniciativa
com o Fundo Fiduciário do Japão, intermediada
pelo Banco Mundial, que pretende doar ao país recursos
da ordem de um milhão de dólares para a
realização de investimentos em estudos e
projetos de MDL na área de resíduos sólidos.
Também com vistas a colaborar com as pesquisas
na área de mudança do clima, o MMA publicou
apóia, por meio do Projeto de Conservação
e Utilização Sustentável da Diversidade
Biológica Brasileira – PROBIO, projetos relativos
ao levantamento de indicadores de diversidade biológica
sensíveis a parâmetros climáticos
e a vulnerabilidade do ciclo hidrológico brasileiro
às mudanças climáticas.
São esforços ainda tímidos diante
da complexidade do tema e do volume de incertezas que
ainda nos cercam. Particularmente para os países
em desenvolvimento, é fundamental que se aprofundem
os estudos em torno da vulnerabilidade de nossos ecossistemas
às mudanças climáticas e das medidas
de adaptação que se mostram necessárias.
Esse é um tema que tem sido tratado com menor destaque
no âmbito internacional mas, espera-se, possa tomar
maior fôlego a partir da próxima Conferência
das Partes da Convenção sobre Mudança
Climática, a realizar-se em dezembro, em Buenos
Aires.
Os problemas de vulnerabilidade e de adaptação
à mudança climática serão
mais sentidos justamente pelos países que têm
menores condições econômicas de enfrentá-los.
Além disso, são pouco conhecidos os danos
potenciais das mudanças climáticas à
biodiversidade tropical. A ampliação do
diálogo existente entre governo, sociedade e empresas
sobre as mudanças climáticas é primordial
para o sucesso das políticas que almejam diminuir
a vulnerabilidade do País e aumentar nossa capacidade
de adaptação ao problema. É fundamental
a realização de esforços para que
o País gere conhecimentos sobre os impactos das
mudanças climáticas à saúde
humana, à biodiversidade e à agricultura
brasileiras.
Igualmente, há a necessidade do desenvolvimento
de projetos voltados para a indústria, agricultura,
saneamento, florestamento e reflorestamento. O Ministério
do Meio Ambiente tem prestado especial atenção
às questões de florestamento e reflorestamento,
pois projetos desse tipo são reconhecidos pelo
Protocolo de Quioto como elegíveis ao MDL. Projetos
de florestamento e reflorestamento de pequena escala,
cujas regras deverão ser aprovadas na Conferência
de Buenos Aires, constituem prioridade do Programa Nacional
de Florestas, que, ao apoiar o plantio de florestas nativas
e exóticas em pequenas áreas, contemplam
as comunidades de baixa renda e o desenvolvimento sustentável,
o que está em consonância com os projetos
de inclusão social do governo.
Há muito o que fazer nessa área e acredito
que o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas
possa desempenhar um papel fundamental em nosso País,
ao aprofundar, com a participação de tão
variados setores da sociedade brasileira, a discussão
sobre os problemas decorrentes da mudança do clima.
O Fórum deverá somar-se aos esforços
da Comissão Interministerial de Mudança
Global do Clima, do Congresso Nacional, que começa
a discutir o tema, de diversas instituições
científicas e acadêmicas, de redes de organizações
não-governamentais que atuam especificamente nesse
tema e de empresas e associações empresariais
que têm se capacitado para promover a internalização
dos compromissos internacionais em nosso País.
Essa conjugação de esforços há
de fortalecer as políticas públicas e formar
as bases para a adoção, em nosso País,
de uma Política Nacional sobre Mudança Climática.
O Professor Pinguelli terá no Ministério
do Meio Ambiente um permanente aliado em sua disposição
de promover esse diálogo. Desejo a ele todo o sucesso
em sua empreitada e felicito o Presidente da República
pela feliz escolha de seu nome para a função
de Secretário-Executivo do Fórum.
ASCOM
Fonte:
http://www.mma.gov.br/ascom/ultimas/index.cfm?id=1454