O
Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), rede formada
por 430 entidades - entre organizações não-governamentais
e movimentos sociais -, divulgou esta semana carta na
qual denuncia os maiores problemas socioambientais enfrentados
por agricultores familiares e comunidades tradicionais
da Amazônia, como seringueiros, castanheiros, quebradeiras
de coco, pescadores artesanais, ribeirinhos e povos indígenas.
O documento, produzido durante a VI Assembléia
Geral da rede, no último final de semana, recorda
o assassinato da irma Dorothy Stang e alerta para a situação
de injustiça social e de ausência de democracia
que predomina na Amazônia. Leia a carta abaixo:
"Nenhuma
liderança social da Amazônia quer virar herói
embaixo da terra"
As centenas de lideranças sociais da Amazônia
Brasileira reunidas na VI Assembléia Geral da Rede
GTA (Grupo de Trabalho Amazônico) vêm alertar
as entidades filiadas, os outros movimentos sociais, as
autoridades constituídas e o público em
geral sobre o grave cenário enfrentado pelas comunidades
da floresta e mesmo pelos programas e políticas
voltadas para seu desenvolvimento.
A atual política econômica do Brasil vem
privilegiando as "commodities" de exportação
como os grãos, a carne e os minérios. Para
as comunidades da Amazônia Brasileira, essa decisão
continuada de vários governos coloca em risco os
projetos sociais e ambientais voltados para o desenvolvimento
justo e sustentável da região. Traz a necessidade
externa de barragens nos rios ainda intactos e um desmatamento
que nos níveis atuais pode acabar com a floresta
em apenas vinte anos. Está em campo uma luta não
apenas territorial, mas também simbólica,
contra os direitos da sociobiodiversidade formada não
apenas pela natureza mas por todos os grupos rurais, tradicionais
e indígenas que conservam a região e que
formam, para a maioria dos investidores capitalistas,
apenas um obstáculo para a expansão de seu
modelo predatório.
Os diversos ataques de setores do Governo, do Parlamento
e do Judiciário aos direitos sociais, culturais
e ambientais das comunidades amazônicas, configurando-se
como porta vozes de setores da sociedade vinculados aos
crimes e a manipulações da opinião
pública voltadas para a desvalorização
da produção familiar e da biodiversidade,
demonstram a conivência com a internacionalização
de grandes áreas da floresta e com o racismo visível
em diversas áreas encobertas pelo discurso técnico.
Na homenagem realizada no evento, muitos outros nomes
de pessoas assassinadas em conflitos socioambientais -
além da irmã Dorothy Stang - foram lembrados,
como testemunhos dessa situação que precisa
ser compartilhada com todos aqueles que não esperam
o futuro da Amazônia como algumas áreas verdes
em meio a uma imensa devastação e injustiça.
As lideranças comunitárias da Rede GTA trabalham
pelo futuro em que acreditam, com o respeito a suas terras,
seu ambiente e seus conhecimentos, mas ninguém
pretende virar mártir por causa de interesses que
devem preocupar a sociedade brasileira e mundial. E que
as ameaçam porque as experiências e propostas
das comunidades amazônicas são suficientes
para orientar um futuro que não pode ser decidido
apenas nos gabinetes ou bolsas de valores. Apresentamos
alguns dos temas discutidos no encontro.
Produção Familiar Sustentável
A produção familiar da Amazônia vem
se preparando nos últimos 20 anos para ser um importante
ator do desenvolvimento sócio-ambiental da região.
Contudo, agricultores/as, extrativistas, pescadores/as
artesanais, indígenas, ribeirinhos, quilombolas,
continuam a enfrentar velhos problemas para a realização
de uma produção sustentável, como
a burocracia para o acesso ao crédito, a carência
e inadequação da assistência técnica
e das pesquisas de ciência e tecnologia às
especificidades das populações e dos ecossistemas
amazônicos, dificuldades de escoamento da produção,
armazenamento, transporte, beneficiamento, acesso ao mercado
e garantia de preços mínimos aos produtos.
Os delegados e delegadas do GTA afirmam que a resolução
destes problemas encontra-se nas várias experiências
alternativas exitosas desenvolvidas por estas populações,
desde o manejo até o beneficiamento dos produtos,
que precisam deixar de ser pilotos e tornarem-se políticas
públicas. Para isto é necessário
garantir a adequação das políticas
públicas às especificadas regionais e dos
povos da Amazônia, como no Plano Safra e nos produtos
previstos nas compras da CONAB. Além disso que
novos valores, além do econômico, sejam inseridos
nas planilhas de viabilidade, como a preservação
ambiental, a inclusão social, a garantia dos direitos
humanos. É urgente que o governo concretize e amplie
o PROAMBIENTE como política de desenvolvimento
sócio-ambiental para a produção Familiar,
que articula a assistência técnica, o financiamento
e a remuneração dos serviços sócio-ambientais
gerados por estes segmentos produtivos.
Diversidade Social e Ambiental
A preservação ambiental, a conservação
e a sustentabilidade social, cultural e da biodiversidade
da Amazônia são compromissos da Rede GTA.
Para tanto, é necessário que se promovam
ações para um zoneamento ecológico-econômico
participativo que fundamente um ordenamento territorial,
no qual o manejo de uso múltiplo sustentável
comunitário garanta sua conservação
e utilização por parte das populações
tradicionais, preservando ecossistemas através
do equilíbrio das espécies com o seu ambiente,
áreas protegidas e terras de uso da sociodiversidade.
Trabalhando as diferenças, e com o apoio de todas
as forças da sociedade, contribuiremos para que
os grandes projetos econômicos e de infraestrutura,
sejam confrontados com os legítimos interesses
dos Povos da Floresta. A implementação das
propostas esbarra em diversas dificuldades inerentes à
realidade social e econômica da Amazônia,
mas também oriundas da inércia e ineficiência
da máquina administrativa do Estado. A dificuldade
de acesso às linhas de crédito por parte
das populações tradicionais impossibilita
o avanço no sentido da melhoria das condições
de vida e de produção, incorrendo na busca
por alternativas de geração de renda que
não condizem com a proposta de sustentabilidade
(ex. garimpo, venda ilegal de madeira, etc.).
A situação na Terra do Meio, que provoca
os desmandos e crimes contra trabalhadores rurais, as
dificuldades de implementação das Reservas
Extrativistas e de manutenção de comunidades
tradicionais que ainda não têm terras regularizadas,
com ameaças renovadas de novos assassinatos não
serão resolvidas com a presença circunstancial
do Exército e Polícia Federal, mas com o
poder público institucionalizado na região.
A morte de indígenas, como as crianças Guarani-Kaiowá,
Xavante e Cinta-Larga, por doenças como a desnutrição
indicam a falta de uma política governamental de
atenção aos povos indígenas. E o
tratamento banal dado pelo governo ao caso é dramático
diante da a omissão do Estado às demandas
amazônicas.
Monitoramento de Conflitos
Tendo em vista uma estratégia de monitoramento
de conflitos para Rede GTA destacam-se os seguintes pontos
e aspectos:
Os empreendimentos minerais e o garimpo têm que
ser observados e pensados como geradores de conflitos.
A implantação do projeto de mineração
de bauxita pela Alcoa em Juriti no Pará, a ampliação
da operação da Vale do Rio Doce nos estados
do Maranhão e Pará, e o garimpo em diversos
pontos da Amazônia, têm o potencial de acirrar
a disputa por qualidade ambiental e territorial.
A cultura de grãos em larga escala, a pecuária,
a exploração madeireira e a carcinicultura,
são atividades concentradoras de terras e de disputa
por recursos naturais. São promovidas por exploração
insustentável dos recursos naturais, grilagem,
exploração de trabalho escravo e desmatamento.
Tem que ser monitoradas de perto, utilizando-se os melhores
recursos tecnológicos disponíveis.
O IBAMA atua de forma ineficiente, pouco confiável
e ausente em muitos lugares. São inúmeros
os casos de corrupção no órgão,
destacando Altamira (PA), onde se relatou que o órgão
além de sucateado, tem fiscais não confiáveis,
e a situação vivida dos ribeirinhos de Gurupá
(PA), onde o IBAMA não analisa nem vistoria os
planos de manejo comunitários de baixa produtividade,
levando os ribeirinhos para ilegalidade. Nas áreas
de limites com outros paises, como a tríplice fronteira
no alto Solimões e fronteira Brasil/Bolívia
em Rondônia a ausência do estado, o contrabando
de madeira e o trafico de drogas tornam os conflitos corriqueiros
e violentos.
Obras de infraestrutura privada como barragens anunciadas
antes das consultas a comunidades locais (rios Xingu,
Tapajós, Madeira, Araguaia e Tocantins) ou o porto
da multinacional Cargill em Santarém (construído
sem o relatório de impacto ambiental), o asfaltamento
de estradas e políticas de financiamento de "commodites"
na Amazônia pelos bancos e agências públicas
têm atraído grande numero de migrantes de
outras regiões do ´país e exterior,
em uma corrida por terras que provoca a expulsão
violenta ou financeira das famílias de terras de
uso tradicional.
Comunicação Comunitária
A Assembléia Geral da Rede GTA aprovou a convocação
das forças sociais da Amazônia para uma campanha
denunciando a situação das rádios
comunitárias no Brasil, especialmente a inadequação
da Lei de Radiodifusão Comunitária para
as características da região. Diversas lideranças
sociais como de Benjamin Constant (AM), Marabá
(PA) ou Macapá (AP) reforçaram o tema com
a descrição de constrangimentos provocados
pela Anatel e pela Polícia Federal na aplicação
de uma legislação que ampara somente os
grandes monopólios dos meios de comunicação
no país e não reconhece o caráter
cultural e ambiental das rádios verdadeiramente
comunitárias da floresta. A criminalização
de defensores da floresta é inaceitável
e a alternativa para o problema é a mudança
da legislação, o reconhecimento do papel
social das emissoras de gestão coletiva, o apoio
para iniciativas para a expressão cultural e o
acesso à comunicação das comunidades
que permitam sua efetiva participação decisória
sobre os grandes projetos e investimentos externos na
região.
Educação para a Sustentabilidade
Acreditamos que o modelo de educação para
a sustentabilidade perpassa questões que devem
resgatar a discussão sobre preservação
ambiental, cultura, formação política
e desenvolvimento local. Temos algumas iniciativas exitosas,
como as Casas Familiares Rural, Escolas Famílias,
Escola Sindical, projetos de Organizações
da Sociedade Civil com parcerias do poder público
e outras. Os povos da floresta amazônica reconhecem
essas ações como propícias para serem
reproduzidas nas comunidades com ausência do poder
público - e também onde houver demandas.
Essas propostas de educação devem levar
em consideração a diversidade e as especificidades
de cada região da Amazônia.
Nosso entendimento é que a educação
não pode ser confundida com estrutura física,
deve-se considerar a qualidade da educação
que passa pela discussão de currículos próprios
que venha atender as necessidades das populações
tradicionais. Como proposta para garantir o funcionamento
e a implantação de novos Centros de Educação
voltados para a Pedagogia da Alternância reivindicamos
que o FUNDEF inclua os Centros de Alternâncias como
prioridade para o repasse dos recursos, o fortalecimento
e ampliação das parcerias municipais, estaduais
e federal, que os órgãos de validação
e regulamentação de educação
reconheçam os Centros respeitando sua autonomia
administrativa e pedagógica, assim como os governos
estaduais. Denunciamos casos como de Amaturá (AM),
onde o programa bolsa família e bolsa escola está
beneficiando famílias que não se enquadram
nesses programas federais.
Gênero e Cidadania
Os debates apontam para a necessidade de se trabalhar
as relações sociais de gênero por
meio da promoção da igualdade de oportunidades,
desde o contexto familiar até as organizações
sociais e políticas públicas. Propõem-se
ações afirmativas que promovam uma maior
inclusão dos homens e mulheres no debate de gênero
e o respeito aos direitos humanos tais como os direitos
sexuais e reprodutivos e o combate à violência.
No campo dos movimentos sociais faz-se necessário
fortalecer e integrar as organizações de
mulheres, interna e externamente, onde se propõem
a criação de um "Fórum de Mulheres
da Amazônia", bem como criar estratégias
que ampliem a influência das mulheres nos espaços
de tomada de decisões. A capacitação
também é uma etapa necessária. Através
dela se fortalecerão as rádios comunitárias,
o intercâmbio e uma linguagem não-sexista.
Serão necessárias formações
que favoreçam a capacidade de gestão, o
planejamento, a elaboração de projetos e
o acesso a créditos por parte das mulheres, assim
como a criação em alguns momentos de espaços
de participação exclusiva das mulheres.
Afirmamos a necessidade de levantar o perfil do movimento
de mulheres na Amazônia, incluindo a questão
étnica, e das experiências produtivas de
manejo sustentável no campo feminino, para que
possam ser potencializadas e disseminadas com o aporte
necessário de assistência técnica
adequada e acesso às linhas de crédito.
Destacamos também a importância da inclusão
de jovens lideranças como parte da estratégia
da rede.
Cooperação Panamazônica
Nos incomoda a militarização de nossas fronteiras,
fato que nos leva perceber um enfraquecimento da democracia,
tornando os povos fronteiriços reféns da
violência e arbitrariedades que a forca dos fuzis
lhes impõe nessas regiões. Ao mesmo tempo
a chamada integração regional ameaça
gravemente a diversidade cultural e biológica da
região.
Diante desses desafios somos impulsionados a solidariedade
entre os povos, através de uma maior integração
dos movimentos sociais da bacia amazônica. Acreditamos
que iniciativas como o Fórum Social Pan Amazônico
são espaços privilegiados para o dialogo
e construção de um modelo de desenvolvimento
sustentável para as fronteiras.
Hoje nossas fronteiras têm sofrido verdadeiro saque
dos seus recursos naturais, além da exploração
do trabalho de populações fronteiriças
- situações que devem ser enfrentadas através
da ampliação dos "Encontros sem fronteiras",
para que os problemas vivenciados nestes locais possam
fazer parte da pauta prioritária dos movimentos
sociais dos países que constituem a Pan Amazônia.
Radicalizar a democracia é preciso, e para isto
estamos dispostos a estabelecer relações
com a OTCA e fortalecer o Movimento Social desta nossa
Amazônia. Tornando cada vez mais democráticas
a vivencia nas fronteiras e reconhecendo que a diversidade
cultural e socioambiental devem ser consideradas como
fatores prioritários para o estabelecimento de
políticas adequadas nas regiões de fronteiras.
Em vez de internacionalizar a Amazônia, vamos amazonizar
o mundo.
Brasília, 20 de março de 2005
FONTE:
http://www.cidadania.org.br/conteudo.asp?conteudo_id=4783